PACIÊNCIA TEM LIMITE!
O brasileiro está começando a perder a paciência com a corrupção. As comemorações do 7 de Setembro ensejaram manifestações populares convocadas pelas redes sociais em várias capitais estaduais e no Distrito Federal, ontem 25 mil pessoas desfilaram pacificamente pela Esplanada dos Ministérios proclamando palavras de ordem contra a corrupção e os corruptos. Em São Paulo, centenas de manifestantes ocuparam pela manhã a Avenida Paulista, com o mesmo propósito. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) lançou na véspera e publicou na imprensa carioca, na quarta-feira, em página dupla, o Manifesto do empresariado brasileiro em favor da ética na política, em que afirma que o combate à corrupção “é uma bandeira coletiva, que representa a aspiração de todo um país”.Na história recente do País, foi assim que começaram os grandes movimentos populares que, por exemplo, se transformaram em 1984, na Campanha das Direitas e, em 19884, na Campanha das Direitas e, em 1992, na mobilização dos jovens caras-pintadas, que fez eco ao clamor popular contra as maracutaias do governo do “caçador de marajás” e forçou o impeachment do presidente Fernando Collor. Agora, é perceptível a revolta latente da população contra os desmandos na administração pública, em todos os níveis. As manifestações do 7 de Setembro podem ser um indício de que esse sentimento começa a se generalizar e a se potencializar, ou seja, a procurar formas mais ativas e concretas de expressão.
As razões por detrás dessa fermentação são óbvias e vão se acumulando: a indecorosa decisão dos deputados federais de absolver uma colega, Jaqueline Roriz, que tinha a casacão de mandato recomendada pela comissão Ética da Câmara por ter sido flagrada recebendo propina, dinheiro vivo, quando era candidata a deputada distrital em Brasília; a impressionante sucessão de denúncias na mídia e as investigações policiais sobre bandalheiras em órgão da administração federal, que resultaram na demissão de pelo menos três ministros em curto prazo, graças à “faxina” da presidente Dilma Rousseff; mais recentemente, o movimento de governistas e do PR & companhia para minimizar a importância e a abrangência dessa mesma “faxina”, forte a ponto de constranger a própria chefe do governo a declarar que não é movida pela intenção de fazer uma devassa nos Ministérios, mas apenas pela obrigação de investigar e punir eventuais irregularidades.
Essa tática diversionista, aparentemente motivada pelo receio de que a tal “faxina” acabe sendo debitada na conta do chefão Lula – afinal, os três ministros demitidos foram herdados de seu governo -, pode afrontar ainda mais a opinião pública, já indignada.
Da mesma forma que as pesquisas de opinião demonstraram grande apoios à ação saneadora da presidente nos episódios das demissões dos ministros poderão vir a revelar exatamente o oposto se em algum momento às pessoas começarem a achar que o Palácio do Planalto se tornou condescendente com a bandalheira.
Por enquanto, aqueles que acham que deve continuar prevalecendo à cínica idéia de que não há nada de errado – ao contrário, são males necessários, e por isso tolerável – num superfaturamento aqui, num desvio de verba ali ou num nepotismo acolá podem contar com o fato de que, embora despontem os primeiros indícios de protestos, não existe ainda uma efetiva mobilização nacional contra a corrupção.
As entidades representativas dos trabalhadores, sindicatos e centrais, por exemplo, bem como instituições como a UNE, decisiva na mobilização dos caras-pintadas de 1992, até o momento não parecem sensibilizadas com a questão. Algumas delas promoveram manifestações no 7 de Setembro, mas exclusivamente para enfatizar reivindicações corporativas.
Ao tentar negar a evidência de que a corrupção é endêmica na administração federal e colocar panos quentes no combate à corrupção, os governistas podem estar dando um tiro no pé. A indignação popular, quando se agrava, geralmente se transforma numa bola de neve e fica incontrolável. PACIÊNCIA TEM LIMITE.
PASSEIO ENTRE FRONTEIRAS
Obras da 8ª Bienal do Mercosul discutem imigração, questões de território, raça e nação.
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| Biennal |
Não é necessário ser especialista para perceber que esta 8ª edição da Bienal é a mais política.O conjunto em exposição nos armazéns do Cais do Porto discute territórios e fronteiras usando signos como mapas, cartas, bandeira, passaportes – criando territórios imaginários com histórias tão interessantes quanto as de lugares reais.
Tome-se como exemplo uma das primeiras obras a atrair o olhar na entrada do armazém A4. Uma corrente dourada amontoa-se até formar o relevo de uma ilha em miniatura. De autoria do mexicano Eduardo Abaroa, o trabalho faz referência a uma ilha cuja mudança de status, de real a fictícia, carrega implicações sérias para a economia mexicana. A chamada Isla Bermeja está nos mapas do México praticamente desde as primeiras descrições cartográficas do país –a referência mais antiga é de 1535.
Mas nunca ninguém se preocupou em ir até lá até bem recentemente, quando descobriu-se haver petróleo nas redondezas. Só que a ilha não foi encontrada.
-Embora técnicos e geógrafos ressaltem que a procura deveria ser mais ampla, a população começou a espalhar lendas de que os norte-americanos haviam roubado ou afundado a ilha, agora que ela valia alguma coisa- comentou Abaroa.
Se o mexicano aborda uma ilha não encontrada, o paulista André Komatsu apresenta uma ilha que se move. Quatro ventiladores, soprando em direções diferentes, fazem girar uma mesinha com rodas, em frente à outra obra do mesmo artista, um muro em que uma coluna de tijolos foi deslocada com um macaco hidráulico – referência a fronteiras livres para capitais, não para pessoas.
Além de bandeiras e mapas (provavelmente os signos mais presentes nos armazéns da Bienal), o camaronês Barthélémy Toguo também trouxe ao espaço da Bienal a burocracia dos atuais impasses nas fronteiras internacionais. Sua obra The New World Climax (“O Clímax do Novo Mundo”) constitui-se de carimbos gigantescos esculpidos em madeira – bem como os dizeres de cada um impresso em folhas coladas em uma parede ao fundo (entre elas, um simpático “passaporte de gaúcho”- alguém deve ter soprado no ouvido do artista sobre o proverbial bairrismo dos locais).
As obras também esboçam suas próprias narrativas. A guatemalteca Yasmín Hage criou uma maquete de madeira e papelão reconstruindo a Aldeia Modelo, tentativa do governo da Guatemala de, nos anos 1980, retomar áreas em plena selva por meio da presença do exército em aldeias planejadas.
Acompanhada o trabalho um vídeo que só se consegue assistir ao colocar a cabeça em uma estrutura cilíndrica de madeira. Um convite a olhar mais perto.
O que também é necessário ao se aproximar da obra de Jean – François Boclé – pilhas de produtos comerciais ordenados num arranjo que à distância lembra o horizonte de prédios de uma grande cidade. Mais perto, revelam-se os produtos, adquiridos em supermercados: alvejantes, doces, utensílios domésticos. Mais perto ainda se vê que ela segue uma linha: da esquerda à direita, de rótulos com fotos e desenhos realísticos de pessoas brancas até produtos em que a imagem de negros é caricaturada: olhos esbugalhados, lábios grossos, mostrados em ocupações subalternas.
A impressão do Cais do Porto em seu conjunto é uma curiosa mistura de ordem e excesso. A exposição aproveita muito bem os espaços, cada obra está lá sem que atropelem as outras, vizinhas. Já o excesso vem da enorme quantidade de informações reunidas – passa-se facilmente uma hora inteira observando um único armazém antes de lembrar que há outros na sequência. Na dúvida, não hesite em perguntar aos mediadores, já que muitas das histórias por trás de cada obra são tão interessantes quanto à própria obra.
EXPRESSO
A questão Angela Merkel e Nicolas Sarkozy forma um casal político tão improvável quanto inseparável. Juntos eles analisam, diante de um copo de suco de laranja ou uma taça de vinho tinta, sozinha ou rodeada por suas respectivas e amplas equipes, o que convêm a seus países e a UE, sempre sob o prisma de seus interesses. Se alguns sócios reclamam da criação de eurobônus, ou seja, bônus europeus com um só nome, Merkel e Sarkozy anulam suas diferenças antes de apresentarem-se ao mundo com uma idéia fiscal e até as constituições de cada país. Os eurobônus chegarão naus tarde, se não houver mais remédio.

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