sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Leitura de Jornal

O frágil equilíbrio de Dilma
SUELY CALDAS
 
O dilema entre priorizar o crescimento econômico ou o controle da inflação esteve presente durante todo o governo Lula, e no governo Dilma Rousseff ganhou definição, com opção inequívoca pelo crescimento. O corte de 0,5% na taxa de juros Selic e repetidas manifestações públicas sobre o tema da própria Dilma, do ministro Guido Mantega e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, comprovam a escolha. A meta, agora, é baixar a Selic em três pontos porcentuais, para 9%, até o ano que vem. Se conseguir fazê-lo com a inflação controlada, decaindo para o centro da meta, de 4,5%, sem extrapolar o teto de 6,5%, Dilma provará a assertiva da escolha e vai desmoralizar as análises dos céticos que não acreditam em milagres. Mas será muito difícil.

Esse dilema Dilma carrega desde que desembarcou no governo Lula, em 2003. No início, como ministra de Minas e Energia, ela se conteve e não ousou enfrentar o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, responsável pelo rumo da política econômica. Mas quando Lula a transferiu para a Casa Civil, em 2005, ela decidiu usar os poderes do cargo e afastar os obstáculos que surgiam à sua frente.

Foi quando, numa entrevista de desabafo ao Estado, em novembro de 2005, ela classificou de "rudimentar" e demoliu o plano de ajuste fiscal de longo prazo que Palocci e Paulo Bernardo montavam e que implicava cortar gastos do governo ao longo de dez anos. Na época, Dilma ficou irritada com uma notícia publicada na imprensa segundo a qual ela teria comentado, em reunião da equipe econômica com Lula, que uma inflação de 15% não chega a prejudicar a economia. "Sou economista, conheço a ciência econômica e não sou burra para dizer uma asneira dessa", disse Dilma às três jornalistas (inclusive eu) que a entrevistavam. Ela identificava na equipe de Palocci o autor do vazamento de seu suposto comentário.

E decidiu dar o troco detonando o plano de ajuste fiscal: "Discutir ajuste fiscal de longo prazo não é fazer projeção para dez anos com base em planilha. Fazer um exercício de números dentro de meu gabinete e achar que ele será compatível com nosso país não é consistente. (...) Esse debate é absolutamente desqualificado, não há autorização do governo para que ele ocorra. (...) Para crescer é necessário reduzir a dívida pública. Para a dívida pública não crescer, é preciso ter uma política de juros consistente, porque senão você enxuga gelo" - foram alguns dos comentários feitos por Dilma na entrevista ao Estado. A divergência ficou pública e ela ganhou a briga: o plano de ajuste fiscal de Palocci foi para o lixo.

Seis anos se passaram, mas os fatos de hoje comprovam que a entrevista continua válida, com a vantagem de que, no calor de sua franqueza irritada, a Dilma ministra de 2005 delimitou parâmetros para crescimento, inflação, juros e ajuste fiscal que não interessam à Dilma presidente tornar muito claros hoje.

Na entrevista ela deixou claro, por exemplo, que a tolerância à inflação tem limite e haverá reação se chegar a dois dígitos. Se em 2005 ela negou, agressiva, que aceitava um índice de 15%, hoje a rejeição é maior, já que 36 milhões de pobres ascenderam à classe média e ao mercado de consumo, e podem ter sua ascensão anulada com uma inflação de dois dígitos. Isso, sim, seria um retrocesso, enxugar gelo.

O raciocínio que ela faz na entrevista sobre a dívida pública também deixa claro que sua concepção de ajuste fiscal está mais dirigida a reduzir a dívida e economizar dinheiro com pagamento de juros do que cortar gastos do governo. Daí a estratégia de queda gradual da taxa Selic e a repetição incansável de que não vai sacrificar o crescimento, o investimento e a geração de empregos.

A estratégia é muito arriscada, porque enfraquece o principal instrumento de combate à inflação (o uso dos juros). E, se a inflação der sinais de descontrole, pode ser tarde demais para forçar sua queda sem uma paulada no aumento dos juros, o que anularia o esforço anterior de reduzir a taxa.

Dilma não pode errar e terá de se equilibrar sobre um tênue fio de linha. É esperar para ver.

Conselhos à Europa. Em visita a Bruxelas, a presidente Dilma Rousseff aconselhou os países europeus a evitarem ajustes fiscais recessivos: "Dificilmente se sai da crise sem aumentar o consumo, o investimento e o nível de crescimento", ensinou. Exemplificou com a experiência dos países da América Latina (inclusive o Brasil) nas décadas de 1980 e 1990, que viveram estagnação econômica ou crescimento lento em decorrência de ajustes fiscais recessivos. Na crise de 2008 o governo brasileiro fez o contrário: injetou dinheiro na economia e o ex-presidente Lula aconselhou os brasileiros a gastarem sua renda, expandirem seu consumo para derrotar a crise. E deu certo.

Dilma esqueceu de mencionar dois detalhes da maior importância: nos anos 1980 o Brasil vivia uma situação de hiperinflação e caos econômico que não permitia uma saída ordenada desse caos; e, na segunda metade dos anos 1990, começou a sair da hiperinflação e reorganizar a economia, o que exigia cuidados de gestão e cautela com gastos públicos. Em 2003 Lula teve a sorte de herdar um país mais arrumado, com a inflação domada e o mundo inteiro em crescimento. Além disso, Lula teve a sensatez de seguir rigorosamente a mesma política econômica de FHC, jogando no lixo as pregações e promessas de 20 anos do PT.

Para os brasileiros que viveram aquela época (Dilma inclusive), a hiperinflação não é um detalhe qualquer a ser esquecido. Ela marcou a diferença em relação à conjuntura atual, influenciou e determinou o desempenho da economia até ser derrubada pelo Plano Real, em 1994.

A crise europeia decorre do excesso de gastos dos governos e de expansão do endividamento para cobrir esses gastos. Sair da insolvência demora, não é de um dia para o outro, muito menos agravando as razões da falência. É claro que o crescimento econômico e a elevação da receita tributária ajudam os países em crise. Mas neste momento, sobretudo no caso da Grécia, a situação é tão caótica que não dá para falar em expansão econômica nem resolver só com a ajuda financeira da Alemanha e da França. O governo grego já avisou que o dinheiro em caixa disponível não dá para completar novembro. Como evitar o default, presidente Dilma?

Sarkozy e Angela Merkel
Acordo Europeu


Bancos aceitam reduzir dívida grega em 50%

Acerto fechado em cúpula de líderes é considerado um avanço para solucionar a crise que atinge a região da zona do euro


Zero Hora, 27 de outubro de 2011.
Economia, página 24.


Por volta de 3h30min da madrugada de quinta-feira em Bruxelas, capital da Bélgica, os líderes europeus anunciaram que conseguiram um acordo com os bancos credores para reduzir a dívida grega em 50%.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, estimou que o percentual representa 100 bilhões de euros. O acerto representa um avanço para uma solução à crise que atinge a Europa.



Em razão do acordo com os bancos, o último pilar do tripé do plano também foi fechado (confira quadro). Os líderes acertaram o aumento da capacidade de resposta do Fundo Europeu de Estabilização Financeira de 440 bilhões para 1 trilhão de euros. Mais cedo, a reunião de cúpula dos líderes havia fechado o projeto de recapitalização dos bancos.



Pelo acordo entre os27 integrantes da União Europeia, os bancos terão de aumentar o capital próprio (indicador que mede a saúde financeira, como a capacidade de fazer empréstimos e resistir a choques) para 9% dos ativos até junho de 2012. Nos mais recentes testes de estresse, a exigência era de 5%. Ainda não está certo de onde virão os recursos necessários. Embora o comunicado abra a possibilidade de uso de dinheiro público, não foi fixado o valor exigido. Especula-se que a necessidade seria ao redor de 108 bilhões de euros.


Com o desconto de 50% da dívida grega, o débito do país deverá cair de cerca de 170% do Produto Interno Bruto (PIB) para 120% no ano de 2020 – o que ainda é considerado alto. Mesmo assim, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse estar “muito satisfeita” com o acordo geral obtido na reunião de cúpula.


Segundo Sarkozy, “o esforço voluntário” dos credores privados evitará que a Grécia entre em “defaut” – ou seja, calote. O impacto será semelhante para todos os bancos, tanto gregos como estrangeiros, afirmou.


Sarkozy contou que ele e Merkel estiveram “em contato com representantes dos bancos não para negociar, mas para informa-los das decisões dos 17” países da zona do euro. Os banqueiros “refletiram e concordaram”.


O tripé
Avanço nos três pilares do plano de salvação da Europa:
Capitalização de bancos Calote parcial da Grécia Aumento do fundo de re sgate
Os bancos da Europa precisarão ter em caixa ao menos nove euros para cada cem emprestados. A nova exigência deverá ser cobrada a partir de junho de 2012. Ficou acertado um desconto que os credores terão de aceitar na dívida grega. Os bancos terão uma perda de 50%, o que deve representar cerca de 100 bilhões de euros. Os líderes europeus na reunião de cúpula em elevar o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, hoje em 400 bilhões de euros, para 1 trilhão de euros.


Confronto entre Sarkozy e Cameron pelo futuro do euro faz disparar a tensão na UE
Ricardo Martínez de Rituerto
Em Bruxelas (Bélgica)
El País

"Estamos cansados de suas críticas e de que nos diga o que devemos fazer. Você diz que o aborrecemos e agora quer se imiscuir em nossas reuniões." O volátil Nicolas Sarkozy explodiu com essas palavras ao insistente pedido do britânico David Cameron sobre como as decisões que adotam e vão continuar adotando os 17 países da moeda única também devem levar em conta os interesses dos outros dez sócios que não pertencem à zona do euro.

O entrevero verbal, sintomático das tensões que crescem na Europa nestas horas de crise sem líderes à altura do desafio, acabou com uma solução à UE: cada cúpula dos países da zona do euro será precedida de uma reunião a 27 para informar os de fora sobre o que será feito.

O confronto verbal entre o presidente francês e o primeiro-ministro britânico foi citado por fontes diplomáticas dentro da disputa mantida por ambos no domingo, no Conselho Europeu, sobre a pretensão de Sarkozy deixar Cameron fora da cúpula da zona do euro prevista para quarta-feira, e a insistência do britânico em que, como sócio da União, tem direito a estar a par do que afete os interesses de seu país.

Reino Unido, República Checa, Polônia e Suécia se transformaram em pontas de lança dessa tentativa de condicionar - "vetar", diz um representante de um país membro dos 17 - o que se decide dentro da zona do euro sem querer associar-se ao clube da moeda única. Os Dez (países fora do euro) temem ver-se diminuídos na rápida evolução para uma maior integração que se propõem os 17 embarcados no euro.

O embaixador de um dos Dez indica que "na UE já temos uma Europa em duas velocidades: a zona do euro e os outros", em que os outros são os oito países que devem forçosamente se integrar à moeda única mais os dois (Reino Unido e Dinamarca) que poderão continuar fora indefinidamente. O embaixador representa um dos oito e faz notar que "se continuar assim, poderá chegar o dia em que o que deva integrar-se se encontre com condições diferentes das que pactuou e opte por pedir novas condições, como por exemplo a realização de um referendo".

Seu governo reclama ter participação no que decidirem os 17, "porque as decisões que os países da zona do euro adotam afetam questões como o mercado único ou a competitividade, entre outros, que são comuns aos 27". Ou, dito com palavras de primeiro-ministro: "Temos de proteger os interesses dos países que querem ficar fora da zona do euro, especialmente com respeito à integridade do mercado único para os 27 países da UE".

É o que declarou Cameron em entrevista coletiva no domingo em Bruxelas, quando foi interrogado sobre seu choque com Sarkozy. "A crise torna inevitável a integração econômica e fiscal na zona do euro, mas não às custas dos interesses do Reino Unido".

Londres é o eurocético por excelência e não consegue se desfazer desse ar de superioridade que irrita os outros, sempre exigindo exceções a uma união na qual entrou em 1973 como um mercado comum e que, cinco tratados mais tarde, evoluiu de tal maneira que já tem até um serviço exterior que pena para dar seus primeiros passos.

Antes do verão o ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, alertou suas embaixadas para estarem atentas e responder em consonância ao que interpretava como planos de Bruxelas para tutelar a política externa. "Sou da opinião de que devemos desfrutar das vantagens da UE sem deixar nos arrastar a um Estado federal", afirma um Hague que limita as vantagens da UE ao comércio sem limites no seio dos 27, o livre estabelecimento em qualquer deles e à ascendência que a União tem como grupo nas negociações globais para abrir novos mercados aos bens e serviços britânicos.

Desde a primavera de 2008 houve reuniões de todo tipo no mais alto nível na UE, sem que até agora se tenha encontrado uma saída verossímil para a crise, circunstância que os cientistas políticos atribuem à falta de autênticos líderes na Europa e a como está mudando o ambiente nas diversas capitais, começando por uma Berlim que se desfez de velhos complexos.

Um deputado europeu revela como em uma reunião seu correligionário Wolfgang Schauble, ministro alemão das Finanças, lhe confessou: "Sou o único europeísta do meu governo".

Uma veterana observadora dos avatares da UE se escandalizou no domingo ao ouvir Sarkozy declarar em entrevista coletiva que precisava tomar decisões até pelos países que não o elegeram. "Essa não é a Europa que eu havia conhecido", ela comentou indignada. "Isso é grotesco."
 

Reforma do tratado preocupa os governos

Em momentos em que a UE sofre uma crise de credibilidade sem precedentes, aos inúmeros problemas concretos somam-se o de retocar o Tratado de Lisboa para melhorar uma disciplina fiscal e aprofundar uma união econômica às quais, por ainda não serem suficientes, se atribuem boa parte das culpas da crise da zona do euro. É aí que recrudescem as tensões entre os 17 da moeda única e os Dez que não estão nela e temem uma deriva do clube forte que os obrigue a assumir obrigações pactuadas às suas costas.

O Conselho Europeu de domingo tomou nota da intenção dos 17 "de refletir sobre um maior fortalecimento da convergência econômica dentro da zona do euro", como se a "intenção" não fosse a "decisão" e "refletir" não fosse "tomar medidas", entre elas a de "explorar a possibilidade de modificações limitadas do tratado". Dado que haverá reformas do tratado, "explorar" poderia se traduzir por como fazer que a modificação do tratado não derrube os muros mestres do edifício. O principal é evitar referendos populares, que causam arrepios nos responsáveis da UE.

Janis Emmanouilidis, analista do European Policy Centre, um grupo de pensadores de Bruxelas, considera que "o fato de que as conclusões da cúpula falem em uma mudança limitada é uma concessão à imensa maioria dos países da UE que se opõem com força a emendar os tratados vigentes, em vista do pesadelo que representou a ratificação dos tratados Constitucional e de Lisboa", o primeiro rejeitado em referendo pela França e a Holanda em 2005 e o segundo, seu alternativo, pendente até o fim da ratificação checa.

A insistência em reformar o tratado procede dos "governos alemão e holandês, convencidos de que a integração fiscal tornará necessária uma emenda dos atuais tratados, porque a legislação primária da UE não tem mecanismos que obriguem os países a cumprir as normas em que se baseia o euro", salienta o cientista político em sua avaliação da cúpula. Alemanha e Holanda querem consagrar a mão dura com os descumpridores.





Apelo. Wen Jiabao pediu mais credito
para pequenas empresas
Crédito 'subterrâneo' se alastra e ameaça a China 
Cláudia Trevisan

Na província de Zhejiang, 80 empresários fugiram por não conseguir pagar dívidas contraídas no mercado informal

Símbolo do empreendedorismo privado na China, Wenzhou, na província de Zhejiang, se transformou na ponta do iceberg de uma nova ameaça à economia do país: a explosão no volume de empréstimos concedido fora do sistema financeiro nos últimos dois anos.

Pelo menos 80 empresários fugiram e dois cometeram suicídio desde abril por não conseguirem pagar dívidas contraídas no mercado de crédito 'subterrâneo', segundo levantamento feito pela agência oficial de notícias Xinhua. Os juros nessas operações giram em torno de 24% a 36% ao ano, comparados à taxa básica de 6,56% fixada pelo banco central para as operações 'oficiais'. Em empréstimos de curto prazo, o porcentual pode chegar a 60%.

Pequenas e médias empresas e empreendedores imobiliários recorrem a esses financiamentos extorsivos em razão da dificuldade de obter empréstimos no sistema bancário, especialmente depois das medidas de aperto monetário impostas pelo governo em 2010.

Muitos entram em um círculo vicioso, no qual contraem novos créditos para pagar os anteriores, até que não conseguem mais administrar a dívida. A situação se tornou mais grave com a recente alta dos custos de produção, queda nos lucros, inflação na casa dos 6% e ameaça gerar uma onda de falências no setor privado.

Há alguns dias, o primeiro-ministro Wen Jiabao visitou a província de Zhejiang e exortou os bancos a concederem empréstimos às pequenas empresas e a tolerarem um maior índice de créditos podres desse setor. Segundo a agência Xinhua, os negócios de pequeno porte respondem por 80% dos empregos e por 60% da produção industrial.

Dimensão. O fenômeno dos financiamentos 'subterrâneos' está longe de se restringir a Wenzhou. O Credit Suisse estima que esse mercado soma 4 trilhões de yuans (R$ 1,16 trilhão) - o equivalente a 15% do total dos créditos concedidos oficialmente pelos bancos em 2010- e se espalha por várias cidades do leste, incluindo Pequim e Xangai.

Em Wenzhou, a cifra é de 110 bilhões de yuans (R$ 31,93 bilhões) ou 20% do empréstimos.

O economista-chefe do Credit Suisse, Dong Tao, acredita que a explosão no crédito informal é a mais perigosa 'bomba-relógio' no horizonte de curto prazo da economia. Os recursos que alimentam esse mercado vêm de diferentes fontes, entre as quais famílias em busca de rendimento superior à taxa anual de 3,5% que os bancos pagam pelos depósitos, o que faz com que a remuneração seja negativa diante da inflação na casa dos 6%.

'Diferentemente do mercado de crédito oficial, o mercado de crédito informal tem uma longa cadeia de débito. Se um elo dessa cadeia falha, toda a rede provavelmente entra em colapso', escreveu o economista em nota a seus clientes. Segundo ele, o impacto negativo desse cenário pode ser generalizado, com efeitos sobre os balanços das empresas, a confiança dos consumidores e os ativos dos bancos.

Vítimas. Entre os 80 empresários que fugiram de Wenzhou por não conseguirem pagar seus débitos, está Hu Fulin, dono de uma das maiores fábricas de óculos da China, a Zhejiang Center Group, que emprega 3 mil pessoas e tem exportações de 600 milhões de yuans (R$ 174,1 milhões) por ano. De acordo com o jornal 21st Century Business Herald, a companhia contraiu dívida de 2 bilhões de yuans (R$ 580,6 milhões) no mercado de crédito subterrâneo.

Desse total, uma parcela de 1,2 bilhão de yuans gerava juros mensais de 20 milhões de yuans, enquanto a taxa sobre os restantes 800 milhões de yuans era de 5 milhões de yuans ao mês.

'O surto de empréstimos privados deu origem a uma bolha econômica e o 'episódio das fugas' em Wenzhou é um marco no estouro dessa bolha', diz texto publicado no Financial News, ligado ao banco central da China.

Na segunda-feira, o governo de Wenzhou fixou um teto para os juros dos empréstimos subterrâneos em uma tentativa de regular um mercado que funciona totalmente à margem das regras oficiais. As taxas dessas operações não poderão ser mais que quatro vezes superiores aos juros básicos. A medida se aplica aos empréstimos concedidos, que deverão ser repactuados. Caso não haja acordo, o devedor estará isento de pagar o porcentual dos juros que superar o teto definido segunda-feira.

O mercado de crédito informal é apenas uma das facetas da explosão de empréstimos experimentada pela China nos últimos dois anos em resposta à crise econômica mundial.

Na avaliação do Goldman Sachs, a relação entre o total de crédito na economia chinesa e o PIB do país cresceu 35 pontos porcentuais desde o fim de 2008 e está em 180%.

Só os governos locais encerraram 2010 com uma dívida de US$ 1,65 trilhão, o equivalente a 25% do PIB. A maior parte desses recursos foi destinada à construção de projetos de infraestrutura iniciados a toque de caixa para evitar a desaceleração econômica. Analistas acreditam que muitos deles não são viáveis e levarão ao aumento dos créditos podres nos balanços dos bancos.



Nova geração pode ficar 'traumatizada' pela falta de empregos, diz OIT
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou nesta terça-feira para os riscos de uma geração de jovens "traumatizada" pelo agravamento da crise mundial.

Segundo um relatório da instituição, os jovens podem sofrer o impacto do desemprego alto nas economias mais avançadas e do aumento do número de trabalhadores pobres nos países em desenvolvimento.

O relatório "Tendências Mundiais do Emprego Juvenil" de 2011 indica que além de criar "um mal-estar social provocado pelo desemprego e trabalhos precários, a crise pode resultar em salários mais baixos no futuro".

"Esta frustração coletiva dos jovens foi um dos motores dos movimentos de protestos que ocorreram neste ano em todo o mundo. Tornou-se cada vez mais difícil para os jovens conseguirem algo diferente de um trabalho por meio período ou temporário", diz a organização, que cita como exemplo as revoltas da primavera árabe.
 

Desistência

A OIT havia publicado em agosto de 2010 um relatório sobre o impacto da crise econômica global no mercado de trabalho para os jovens entre 15 e 24 anos. Mas em razão do aumento das incertezas no cenário econômico, decidiu atualizar as tendências.

No relatório anterior, a organização constatou que em 2009, o pico da crise, o número de jovens desempregados havia aumentado em 4,5 milhões, um recorde. A média até 2007, antes da crise, era de menos de 100 mil pessoas por ano.

Segundo o novo documento, a crise no mercado de trabalho dos jovens continua grave em 2011. Se os números registram uma leve queda, isso é devido ao fato, diz a OIT, de que muitos jovens simplesmente desistiram de procurar emprego, sobretudo nos países da União Europeia.

O relatório afirma que a taxa de jovens desempregados no mundo, de 12,7%, permaneceu inalterada entre 2009 e 2010, totalizando 75,1 milhões de pessoas no ano passado. Em 2011, o número de jovens sem emprego deverá cair para 74,6 milhões (12,6%).

Desencorajados

A OIT diz ainda que 2,6 milhões de jovens a menos do que o previsto nas estimativas entraram no mercado de trabalho em 2010, nos 56 países onde os dados foram apurados.

"Muitos desses 2,6 milhões são certamente jovens desencorajados que esperam a recuperação da economia. Eles devem retornar ao mercado de trabalho como desempregados, o que significa que as estatísticas oficiais subestimam sem dúvida a dimensão real do problema nas economias desenvolvidas."

O relatório cita o exemplo da Irlanda, país fortemente afetado pela crise da dívida soberana, onde o desemprego dos jovens – que saltou de 9% em 2007 para 27,5% em 2010 – poderia ser 19 pontos percentuais mais alto se as estatísticas levassem em conta os que se voltaram a estudar ou desistiram de procurar emprego.

A taxa dos que trabalham por meio período aumentou em todos os países desenvolvidos, com exceção da Alemanha. Na Irlanda e na Espanha, por exemplo, o aumento foi de 17 e 8,8 pontos percentuais, respectivamente.

Em alguns países em desenvolvimento, como os do sudeste asiático e os da África, as taxas de desemprego juvenil são menores, de acordo com o relatório.

No entanto, a organização afirma que isso não significa que a situação nessas regiões seria melhor do que a das economias avançadas.

"Isso quer dizer simplesmente que os jovens dos países em desenvolvimento, com pouca ou nenhuma proteção social, não têm outra opção além de trabalhar", diz o documento.




Quanto vale a Europa? 
DEMÉTRIO MAGNOLI

"Sem o euro não existe Europa", constatou Angela Merkel, no mesmo discurso em que assegurou que não haverá uma "união da dívida". As afirmações, contraditórias entre si, refletem imperativos diferentes. A primeira é uma homenagem prestada à História - ou seja, ao projeto supranacional da União Europeia. A segunda expressa a vontade dos eleitores alemães - ou seja, a existência do Estado-nação. Agora, diante da iminente falência grega e do espectro de um colapso bancário em série, a chanceler alemã deve escolher entre uma e outra, pois não pode ter as duas.

História, no caso da Europa, significa uma catástrofe única, que devastou o sistema moderno de Estados erguido na Paz da Westfalia, em 1648, e reconstruído no Congresso de Viena, em 1815. A União Europeia, um fruto da catástrofe, é filha de Stalin e de Hitler.

Stalin: o projeto europeu emanou das circunstâncias da guerra fria, na forma de uma aliança entre a França e a Alemanha, antigas rivais separadas pelos ressentimentos acumulados em três guerras sucessivas. O ato inicial da Europa foi o Plano Schuman, de criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca), em maio de 1950, meses depois da fundação da Alemanha Ocidental e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). À sombra ameaçadora da URSS, a unidade da Europa Ocidental era o complemento necessário para a aliança transatlântica com os EUA.

Hitler: o projeto europeu emanou das ruínas fumegantes da 2.ª Guerra Mundial, o testemunho do colapso de um sistema baseado na soberania absoluta dos Estados. A ideia genial do francês Jean Monnet, de compartilhamento de soberanias, representou a solução para uma civilização destruída pelo nacionalismo sem freios. O ingresso da Alemanha Ocidental na Otan implicava o rearmamento alemão, apenas cinco anos depois da libertação de Paris. A Ceca foi o intercâmbio que o propiciou: no altar da aliança com a França, a Alemanha sacrificou sua supremacia nacional na indústria siderúrgica, a fonte do aço e das armas.

Numa prova de que a paternidade de Hitler é mais forte que a de Stalin, o encerramento da guerra fria não provocou a dissolução do projeto europeu, mas o seu avanço para um novo patamar. A reunificação alemã, em 1990, reativou as assombrações de um passado perene. Então, o espírito de Monnet inspirou François Mitterrand e Helmut Kohl a formularem uma segunda grande barganha, coagulada no Tratado de Maastricht, de 1992: "Toda a Alemanha para Kohl, metade do marco alemão para Mitterrand", na síntese proporcionada por uma ironia realista. A introdução do euro representou um novo sacrifício alemão, desta vez da supremacia nacional monetária, no altar da unidade europeia. O compromisso reafirmado de uma "Alemanha europeia" deveria afastar para sempre os temores estrangeiros e as tentações nacionais sobre a "Europa alemã".

"Estados Unidos da Europa" - a ousada fórmula de Monnet para um mundo pós-nacional ganhou uma materialidade mais prosaica na Comunidade Europeia, inaugurada em 1957. O gesto fundador deu-se em Roma, cercado por um simbolismo elétrico. Roma é a metáfora do Império, isto é, o oposto perfeito da nação. O Estado-nação é o poder de uma entidade política singular e homogênea, que exerce sua soberania num sistema internacional de Estados soberanos. O Império é o poder universal de um soberano, que se exerce sobre uma miríade heterogênea de povos. O mito da restauração de Roma, a memória abstrata de um tempo de unidade, pairava sobre os estadistas que fundaram a Comunidade Europeia.

A força foi a ferramenta das diversas tentativas medievais e modernas de reinvenção de Roma. Tratava-se, mais de meio século atrás, de restaurá-la pelo instrumento do consenso. Mas, mesmo depois de Maastricht, a realidade nunca se confundiu com o mito. A Europa que se veste com as roupagens do Império é uma comunidade de Estados nacionais. Além da esfera de soberanias compartilhadas, subsistem as nações, com seus sistemas políticos próprios, suas leis singulares e seus governos particulares. Quando a tempestade ameaça varrer o euro e toda a herança de Monnet, os holofotes iluminam os encontros entre os chefes de governo da Alemanha e da França, não a Comissão Europeia ou os burocratas que ninguém elegeu instalados na ilha europeia de Bruxelas.

Há duas décadas, Kohl invocou a promessa sagrada da unidade alemã para convencer os eleitores de que os alemães orientais eram concidadãos e, por isso, valia a pena subsidiar a troca de marcos orientais na equivalência artificial de um para um. Angela Merkel carece do argumento de Kohl, quando se trata de gregos, portugueses, irlandeses espanhóis ou italianos. Uma coluna da revista britânica The Economist registra que a palavra alemã Schulden, que significa "dívida", deriva de Schuld, cujo significado é "culpa". A tradição luterana se mescla à vívida memória da hiperinflação da República de Weimar para formar um denso caldo de resistência às propostas de resgate europeu dos países endividados. A ideia de união fiscal, contrapartida aparentemente indispensável à união monetária, assumiria a forma imediata de uma "união da dívida", pela emissão de títulos europeus ou por um aumento dramático nos recursos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Mas é precisamente isso que Angela Merkel qualificou como inaceitável.

Quanto vale a Europa? Sondagens de opinião entre os alemães revelam uma rejeição majoritária a novos pacotes de salvamento dos países que rondam o precipício. Simetricamente, entre os gregos, uma sólida maioria recusa a transferência da soberania popular sobre a economia nacional para Berlim e Bruxelas, condição quase explícita do plano de resgate em curso. Angela Merkel tem dias, talvez semanas, para começar a falar sobre Stalin e Hitler. O valor da Europa depende do eco que, tanto tempo depois, ainda puder gerar a menção desses nomes sinistros.

Nenhum comentário: