quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Leitura de Jornal

BANDEIRAS PARA TODOS


Marcha de abertura com a cara dos novos tempos
Alvo maior das críticas em Fóruns passados, EUA e FMI perderam destaque em protestos deste ano


Nenhuma bandeira dos Estados Unidos foi queimada, a paz preponderou entre manifestantes e policiais militares, e os costumeiros gritos de "Fora FMI" viraram coisa do passado.
Onze anos depois de sua primeira edição, a tradicional marcha de abertura do Fórum Social Mundial - desta vez em versão temática - ganhou novas feições, ontem, em Porto Alegre.

Durante duas horas - parte sob calor arábico, parte sob chuva torrencial -, milhares de pessoas caminharam do centro da cidade até o Anfiteatro Pôr-do-Sol ao som de samba e vanerão. Tudo ao mesmo tempo. No lugar dos velhos ataques à cúpula das decisões econômicas mundiais ou aos governos das potências do momento, que tanto marcaram o passado, surgiram novas, múltiplas e diferentes demandas.

Não há mais um único "inimigo" comum, mas um conjunto de problemas reunido sob o guarda-chuva da crise planetária - entre eles o consumismo desenfreado, o descaso com a educação e, principalmente, a destruição ambiental e suas consequências funestas.

Com um caixão cheio de mudas de árvores, atores do grupo gaúcho Depósito de Teatro encenaram, não por acaso, a morte da Mata Atlântica - com direito a roupas pretas e maquiagem cadavérica. Das janelas dos prédios e do alto do viaduto da Avenida Borges de Medeiros, homens, mulheres e crianças assistiram à performance e cobriram os artistas - ironicamente - com papel picado.

-- Acho que o pessoal não entendeu bem a mensagem, né? Tomara que ninguém veja todo esse desperdício - comentou uma senhora, na calçada.

A espectadora não sabia, mas tudo o que viu e testeminhou já estava, àquela altura, na internet. Com celulares conectados o tempo todo às redes sociais, jovens integrantes da marcha faziam, eles próprios, a divulgação do evento em tempo real - sem interferências. Além disso, blogs ao vivo, para quem quisesse ver - algo impensável num passado nem tão distante.

Lá no fim da marcha, com passos curtos mais firmes, uma senhora de 81 anos vibrava. Maria de Lourdes Negreiro de Paula, a tia Lourdes, como é conhecida, deixou Fortaleza na companhia do grupo Crítica Radical decidida a fazer parte de mais um Fórum - ela este no primeiro. Com um chapéu de palha de abas largas, aguentou firme até o fim da jornada. E já avisou: vai voltar.

-- Vim a Porto Alegre porque acredito num mundo melhor e acho que a gente vê isso no rosto das pessoas. Enquanto eu aguentar, vocês ainda vão me ver muitas vezes por aqui.

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