terça-feira, 19 de junho de 2012

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O governador da transição
AMARAL DE SOUZA 1929 - 2012

Depois de quase três décadas longe da vida pública, morreu ontem, em Porto Alegre, o último governador gaúcho nomeado durante a ditadura militar. José Augusto Amaral de Souza tinha 82 anos e estava doente desde 2006, quando sofreu um AVC. Ele comandou o Estado entre 1979 e 1983, quando teve início a reabertura política no Brasil.

A ditadura militar definhava. Em março de 1979, quando José Augusto Amaral de Souza foi nomeado governador do Estado – o último ungido pelo regime (1964-1985) – o Rio Grande do Sul fervia. Coube a ele a missão de "destampar a panela de pressão", nas palavras do então presidente Ernesto Geisel, que comandou o país de 1974 a 1979, e conduzir a transição, sem solavancos, à democracia.

 
O conciliador, como passou a ser definido por amigos (e até inimigos), morreu ontem, aos 82 anos, em sua casa na Capital. Sofria de complicações decorrentes de um AVC desde 2006 e vivia preso a uma cadeira de rodas. Havia muito não estampava as manchetes dos jornais, mas nem sempre foi assim.

No fim da década de 1970, assumiu com orgulho a incumbência atribuída por Geisel. Era um adepto fiel da "política tecnocrática da ditadura", segundo o historiador Charles Monteiro. Ainda assim, a opção por seu nome surpreendeu a Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime. O mais cotado para a vaga era o deputado federal Nelson Marchezan, também da Arena.
Amaral, nascido em Palmeira das Missões em 21 de agosto de 1929, não era considerado um orador brilhante, preferia a discrição dos bastidores ao brilho dos holofotes e, na opinião do historiador Sergio da Costa Franco, podia ser considerado um "político apagado". Mas sabia medir palavras, dava uma boiada para não entrar numa briga e era capaz de conciliar o inconciliável. Tinha jogo de cintura, na avaliação da cientista política Mercedes Cánepa. Por conta disso, foi escolhido.

– Ele chegou para fazer a costura final, a serviço da ditadura. Tinha absoluta consciência do momento em que vivíamos e cumpriu esse papel – recorda o ex-governador Alceu Collares (PDT), que na época engrossava as fileiras da oposição.

Nem por isso, Amaral encontrou facilidades. Logo depois de tomar posse, teve de encarar a primeira grande greve dos professores, reunidos no Cpers. Eles paralisaram as atividades por 13 dias em busca de reajuste. Enquanto tentava administrar o problema, tinha de se desdobrar para apaziguar os ânimos no MDB, que não dava trégua.

– No resto do Brasil, a oposição de certa forma se acomodou. No Rio Grande do Sul, não. Aqui era diferente. Fomos duros com Amaral – relembra o ex-governador Pedro Simon (PMDB).


Arquivos do Dops foram queimados

Apesar das resistências, aliados destacam os feitos do pupilo de Geisel. Amaral foi fundamental, segundo o ex-prefeito de Porto Alegre Guilherme Socias Villela (PP), para garantir as obras do Polo Petroquímico de Triunfo em meio a uma briga de cachorros grandes, envolvendo Rio, São Paulo, Bahia e Pernambuco. E atuou na implementação do trensurb no Estado – a primeira estaca foi fincada ainda no seu governo.

– Ele conseguiu unir o Rio Grande do Sul em torno do projeto do polo e fez com que o Estado superasse a síndrome do caranguejo – afirma Villela.

Apesar disso, críticos de sua gestão dizem que ele contribuiu para inchar a máquina estatal. Amaral não ligava. Aos amigos, o ex-governador gostava de dizer que contava com "apoio civil" – e não apenas militar – em seu governo. E gabava-se de ter aprendido o ofício da moderação durante o período em que advogara no Interior. Era graduado em Direito na UFRGS e em filosofia na PUC.

Em 1952, já formado, retornou para Palmeira das Missões, onde montou um escritório de advocacia. Ali, conheceu e casou-se com Miriam, com quem teria três filhos. Também foi na terra natal que conquistou o primeiro mandato político, como vereador, pelo PSD, derrotando um primo e um tio na eleição. Desde aquela época, sempre foi contra "o radicalismo da esquerda". E manteve-se assim até o fim da vida.

Se foi responsável pela extinção do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no Rio Grande do Sul, também foi autor de um ato polêmico. Admitiu, anos depois, ter ordenado a queima dos arquivos da repartição, incinerando uma parte importante e nebulosa da história gaúcha.

– Foi um erro – reconheceu o ex-governador, 20 anos depois.

Fonte: Zero Hora ESPECIAL

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